Por Gisele Cichinelli
Quantificação automática e precisa são as primeiras e principais vantagens citadas quando o assunto é o uso do Building Information Modeling, (BIM, ou Modelagem de Informação para a Construção) na orçamentação. Os softwares que suportam a tecnologia permitem calcular instantaneamente todos os quantitativos.
No Brasil, por enquanto, são poucas as empresas que estão se arriscando a desbravá-la. "E ainda enfrentam todas as dificuldades inerentes a qualquer mudança de paradigma", lembra o engenheiro e consultor Pedro Antonio Badra, da empresa Sistemática Badra de Dados (SBD). Enquanto a interação entre os softwares BIM e de orçamentação precisa evoluir, faltam bibliotecas com dados precisos, profissionais capacitados a operar na lógica do 3D e, sobretudo, disseminação de informação sobre o assunto.
Na tentativa de orientar o mercado, o engenheiro, que acumula 37 anos de experiência em orçamentos, nove dos quais dedicados ao levantamento de quantitativos em BIM, lança ainda neste ano o livro Guia Prático de Orçamento - Do Escalímetro ao BIM (Editora PINI). O documento pretende servir como manual para orçamentação, incluindo roteiros e metodologia de quantificação em BIM.
Em entrevista ao Guia da Construção, Badra faz um panorama do uso da solução na construção civil brasileira.
Quais as maiores vantagens da aplicação do BIM nos orçamentos?
Na construção virtual tem-se a padronização dos critérios de quantificação, pois as peças vão sendo construídas ao mesmo tempo em que os critérios de execução são impostos, transformando esses dados em quantidade. Tudo o que se desenha é quantificado automaticamente. Apesar dessa grande vantagem, existe a necessidade de aprendizado de operacionalização do sistema. É preciso contar com pessoas experientes, que entendam como "ler" um projeto em 3D.
E o mercado já dispõe desses profissionais capacitados?
Não, ainda há poucas pessoas capacitadas para operar em BIM e as universidades ainda não contam com cursos complementares na sua rede curricular para estimular os estudantes a ter acesso à tecnologia. Para se ter uma ideia, já temos mais de três milhões de metros quadrados levantados, mas até hoje não conseguimos receber um único projeto em BIM. Ainda recebemos os projetos em 2D e temos de passá-los para 3D para, daí, extrairmos as quantidades. Mas acredito que os projetistas, com o tempo, enxergarão as vantagens de trabalhar em 3D.
Como avalia o cenário para o uso e disseminação dessa ferramenta na orçamentação hoje?
Quando começamos a usá-lo, entregávamos quantitativos dentro de planilhas em conjunto com alguns desenhos, sem memoriais de cálculo, como se fazia então. Isso foi visto como novidade, mas ninguém pagava por aquilo. Não havia a noção de que a ferramenta poderia otimizar a obra. Passados oito anos, os clientes começaram a perceber o valor da tecnologia BIM.
Como o senhor tem observado a introdução da tecnologia dentro das construtoras?
As empresas ainda estão encontrando algumas dificuldades. Além da formação de uma equipe homogênea que saiba utilizar a tecnologia, a formação de uma biblioteca residente que diminua o tempo de elaboração de um orçamento também tem sido um dos principais gargalos na implantação do sistema dentro das empresas. Quem opera não sabe criar, pois para executar essa tarefa é preciso ter todos os elementos construtivos (no caso de uma porta, por exemplo, detalhes sobre batente, largura de batente, espessura, tipo de fechaduras, etc.).
E qual seria a saída?
A indústria da construção civil deve oferecer as informações sobre seus produtos e sistemas ao mercado, o que ainda não acontece. Nosso pessoal ainda tem de criar esses dados. Base de dados é um elemento indutor ao uso dos materiais e as empresas da cadeia da construção civil têm de se atentar a isso.
Quais são os principais gargalos que ocorrem durante a fase de levantamento de quantitativos?
O projeto deve ser entregue dentro das condições do quantitativo-executivo. O orçamentista deve receber o projeto executivo pronto, assim pode transformar todos os seus detalhes em números. Com um projeto executivo em mãos, teoricamente é possível construir o prédio com todos os detalhamentos e, consequentemente, extrair os quantitativos corretos e bem detalhados. Infelizmente, isso ainda não é realidade no Brasil. Recebemos projetos incompletos, "prontos" apenas para serem aprovados pelas prefeituras, porém com a exigência de extrairmos orçamentos executivos. Isso representa uma distorção do conceito BIM, pois não cabe ao orçamentista detalhar nada.
Pelo que o senhor relata, as vantagens do BIM ainda não estão sendo exploradas na sua totalidade. Como mudar esse panorama?
A visão do projeto tem de evoluir do "2D" para o "3D", tanto no que diz respeito à construção como à orçamentação. Já existem comissões em entidades como a Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (AsBEA) para discutir e promover palestras sobre a tecnologia. Mas o ideal, insisto, é que esse conhecimento seja introduzido nas universidades, de modo que os alunos egressos possam disseminá-lo nas construtoras. Vale lembrar que o BIM também é uma ferramenta 4D (orçamento-planejamento) e 5D (orçamento-planejamento-medições e controle). Ou seja, é uma ferramenta extremamente dinâmica.
Qual é o grau de precisão alcançado na estimativa do custo global da obra com o uso da ferramenta?
Se os quantitativos são precisos, os orçamentos sairão a partir desses dados, podendo chegar a 95% de precisão dessas informações. Hoje, já temos condições de começar uma obra com muito pouca variação de custo. Utilizando isso no campo, a variação diminui muito. Desperdícios e imprecisões podem ser facilmente resolvidos com a correta aplicação do BIM.
Como tem sido a interação dos orçamentistas com a obra?
Até pouco tempo, o orçamento era uma peça que servia simplesmente para valorizar a obra e que era rapidamente esquecida. Na obra, começava-se tudo novamente, com engenheiros e estagiários contratados para executar medições, etc. Com o advento do BIM os relatórios já saem com todos os dados listados e quem está no campo não precisa fazer medições. A interação projeto-obra é imediata e isso produz retorno no custo da obra. Se houver alteração no orçamento, o problema não está no quantitativo e sim na precificação. No preço, se analisa se a compra foi malfeita ou se a mão de obra foi improdutiva. Essa informação volta para composição. A inter-relação do orçamento com a obra é dinâmica.
O que se perde quando é preciso fazer a conversão do 2D para o 3D?
Tempo, basicamente. O departamento de orçamento não deve corrigir projeto e sim detectar falhas. Se houver um coordenador de projeto, ele deve detectar essas informações e passá-las para a fase seguinte, de orçamentação e precificação. Mas, na maioria dos casos, temos que assumir essa fase. Hoje, as construtoras que estão implantando a ferramenta também estão tendo de contratar o profissional para fazer a "tradução" do projeto de 2D para 3D, o que gera custo e tempo. Por outro lado, o uso do BIM detecta problemas que podem custar muito se não forem evitados antes da etapa de execução da obra. É preciso observar a relação entre custo e benefício.
A interação dos softwares de orçamento com os softwares BIM é satisfatória?
Ainda existe a necessidade da intermediação do homem nessa transferência de dados. É necessário codificar as informações numéricas do BIM para o orçamento. O ideal é que essa codificação fosse automática. Para isso, é necessário investir em soluções de alto custo, que demandam investimentos.
Comentário do Editor
Meu objeto de estudo no Mestrado é o Sistema de Classificação para Informação da Construção, que está sendo normalizado pela Comissão de Estudos Especial 134 da ABNT e que, justamente, oferece as condições necessárias para que especificação e orçamentação sejam feitas da maneira correta na plataforma BIM.
A unidade semântica associada à uma codificação única vinculadas ao objeto construtivo constante do modelo 3D e estas, associadas à composição de custos advinda de uma base de dados externa, possibilitarão aos profissionais que se debruçam sobre esta atividade relevante na fase de pré-construção, gerar planilhas orçamentárias com maior precisão, menor margem de erros, menores percentuais de ajuste e estimativas e como resultante, maior lucratividade.
Vale ressaltar que esse processo só é possível com colaboração interdisciplinar entre os agentes do processo, com a informação correta e entregue da maneira correta ao ser disponibilizada no modelo. Essa é, resumidamente, a forma de trabalho no BIM.
A reportagem está neste
LINK.
[via Guia da Construção, edição 135 - Outubro 2012]